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STELA ROSA SGUASSÁBIA (biografia)

 

Stela Rosa Sguassábia

Este é o verdadeiro nome de Maria – que nasceu em Araraquara-SP, em 12 de março de 1889. Filha de José Sguassábia e Palpello Clotildes. Quando tinha 3 anos, a família mudou-se para São João da Boa Vista. Nessa cidade casou-se com José Pinto de Andrade em 22 de abril de 1922. Ficou viúva quando estava no 5º mês de gravidez de sua única filha Maria José. Esta nasceu em 29 de janeiro de 1923. Maria José casou-se com João Marsiglia em 15 de janeiro de 1942. Tiveram 2 filhos: Mauricio e Henrique.

Seu pai, italiano, decidiu que sua filha se chamaria Stela Rosa, pois era branca como uma estrela e bela como uma rosa. Na pia batismal o padre recusou chamar a menina de Stela Rosa e acrescentou Maria em seu nome. E assim, tornou-se conhecida como Maria Sguassábia. Era professora primária.

Foi neste cenário de muita insegurança, que Maria via levas e levas de soldados transitando pela estrada rumo a fronteira. A casa-grande da fazenda Paulicéia foi transformada em Posto de Comando da 4ª Companhia de 1º Batalhão Paulista da Milícia Civil. Seus irmãos Primo e Antonio haviam alistado como voluntários. Antonio estava com ela na fazenda; Primo tinha ido para a fronteira entre São Paulo e Paraná. Maria teve notícias de que seu irmão Primo seguira para a linha de fogo. Poucos dias depois, recebia a comunicação da sua morte em combate.

Início dos combates

“Ao menos Antonio, pensou Maria, está por perto”. A alegria durou pouco. O administrador da fazenda trouxe ordens para evacuar a escola, pois a mesma encontrava-se no eixo das operações e poderia ser perigosa à permanência das crianças ali. Maria, porém, obstinada, decide ficar. É a única mulher, no meio de 400 soldados. Todos os civis foram evacuados. Os rumores da revolução abalaram a tranqüilidade da fazenda. A pouca distância da fazenda onde morava, já estavam combatendo, num lugarejo de fronteira chamado Eleutério. Ela ouvia, nitidamente, à noite, o tiroteio. São Paulo estava em guerra contra o governo ditatorial de Getúlio Vargas. Muita agitação na capital; o medo e a ansiedade cresce em todas as cidades do estado.

Da janela, Maria avistava a sentinela da porteira. Sua função era vigiar a estrada que demandava a fronteira entre Minas Gerais e São Paulo, onde se concentravam tropas inimigas. Sua tarefa era não deixar ninguém passar sem identificação. À noite, a porteira deveria ser amarrada com arame farpado. Um soldado fora requisitado para vigiá-la. Era um verdadeiro “palerma” segundo Maria, pois limitava-se a ficar ali, parado, sem levantar os olhos e aparando intermináveis pedacinhos de madeira, com o canivete. De onde ela estava via gente transitar livremente, enquanto o soldado… apenas suspendia os olhos do canivete. É um relapso, pensou ela.

A cidade de São João da Boa Vista não ficou à margem do movimento revolucionário. A população participou ativamente dos comícios nas praças públicas e muitos oradores foram ovacionados, pois suas palavras iam de encontro ao sentimento de todos. A imprensa local exortava o espírito guerreiro dos sanjoanenses, com artigos vibrantes e sugestivos, esclarecendo e orientando sobre os acontecimentos na capital. Os jovens, empolgados pelo curso dos acontecimentos, começaram a procurar os postos de alistamentos, oferecendo-se para colaborar com tão nobre causa.

Juramento do Soldado Constitucional
“Juro, pelo amor que tenho á minha mãe, pelo nome que tenho do meu pae; juro pela minha dignidade de homem; juro por Deus, que luctarei até o fim, por São Paulo, pelo Brasil, pela nossa Bandeira! Juro!”.

A apreensão era grande e a população não teve mais sossego. Ninguém conseguia ter uma vida normal com seus afazeres. Só pensavam no que ia acontecer com a Revolução. Familiares dos soldados e curiosos ficavam horas em frente ao grupo Escolar, esperando ter notícias. Caminhões carregados de víveres ou soldados atravessam a cidade, muito rápidos, deixando a população apavorada. O que não faltava eram os boatos. E nesse clima de confusão e pavor, chegou o Tenente Mário Meira, com um caminhão carregado de armas e munições. A maioria delas em péssimo estado de uso. Armas velhas e fora de uso, que foram encontradas num porão na cidade de São Carlos.

Combate no bairro da Cascata

Num domingo à noite, estando os soldados de prontidão e os namorados tentando alguma comunicação através das grades do muro, chega um carro Ford com vários oficiais e logo em seguida foi dada a ordem para que um caminhão fosse para fronteira na Cascata, bairro de Águas da Prata, levando munições. A Revolução estava de fato começando! Um oficial inimigo infiltrou-se no batalhão e tentou enviar as armas que acabavam de chegar para a fronteira da Cascata. Ele tinha certeza de que os ditatoriais já haviam se apoderado das armas dos poucos soldados revolucionários que lá se encontravam. Ele planejou ficar até mesmo com o caminhão que transportaria o material. Ficando a cidade sem defesa, ela seria tomada em pouco tempo.

Após o ataque da tropa ditatorial em Poços de Calda, tornou-se urgente a proteção nas divisas de Andradas, pois segundo informações, os inimigos já se encontravam ali concentrados. A 4ª Cia. Benedito Araújo, do 1º Batalhão P. Milícia Civil, achava-se em meiados de julho de 1932, nas fronteiras paulista, estendidas em uma frente de cerca de dois quilômetros, guardando as estradas – Andradas/São João da Boa Vista e Santo Antonio do Jardim/São João da Boa Vista. O P.C. da Cia. estava localizado nas imediações da Fazenda Paulicéia, onde se encontrava um grupo de combate, sob o comando do sargento Christovan Resende. O batalhão recebeu ordens para seguir para a fazenda, que requisitada pelos oficiais tornou-se Q.G do 1º Batalhão.. Os soldados que ali se encontravam preparavam o terreno e encontravam-se sujos e barbudos, quando para alegria geral chegou o caminhão que trazia os novos combatentes, ainda com as fardas novas limpas. O comandante do setor era veio receber os novos combatentes e apresentou a todos o alojamento e o local que serviria de cela os soldados rebeldes – o galinheiro. Para surpresa geral o jantar foi um verdadeiro banquete, pois ali havia um exímio cozinheiro que encontrou à sua disposição, muitos frangos para o abate. Logo após o jantar, o comandante comunicou seus planos de ataque e a responsabilidade daquele setor, já que o inimigo encontrava-se a poucos quilômetros de distância, à espreita. Como os cães latiam muito e com o grande medo de serem atacados enquanto dormiam, foram designado 12 homens para a sentinela. No meio da noite, a tropa foi acordada e chamada às armas, pois foi ouvido um barulho estranho e poderia ser o inimigo aproximando-se.

Tiroteio na madrugada

Amanheceu. Descobriram que o alarme fora falso outra vez! Desta feita um morador da região, cansado com aquele movimento todo e não acreditando muito na revolução, atirou para o alto, para assustar a tropa, na esperança que fossem embora dali rapidamente. Por causa destes incidentes, o comandante ordenou que a tropa retraísse para um local mais plano, com área mais visível, distante dois quilômetros das imediações da fazenda Emboava. Maria vê quando o soldado sentinela da porteira, correndo pela estrada, atira o fuzil no meio do mato e desaparece por detrás do morro. Miserável, medroso, covarde! – pensou Maria. Ela observava há tempo sua janela, que o soldado escalado para montar guarda à porteira da fazenda Paulicéia, que ficava rente à escola desincumbia-se da tarefa pela metade. Postava-se junto da porteira, mas não fazia nada de prático. Limitava-se a olhá-la como se o inimigo fosse a porteira.

Maria morava numa modesta casa, onde a Câmara Sanjoanense mantinha uma escola, e ela era a professora. Ali residia, em companhia de sua filhinha Maria José e um irmão moço, Antonio que havia se alistado como voluntário da 4ª. Companhia. Diariamente, ela preparava para Antonio e os soldados de seu grupo, o alimento necessário, tornando-se então a cozinheira de todos eles. Chegando à janela, viu um soldado, que estava de sentinela numa elevação próxima, passar correndo e atirar o fuzil junto à sua casa. A indignação de Maria não teve limites. Se pudesse, alcançaria o patife e lhe daria umas bofetadas. Mas não teve tempo de refletir sobre o ato de covardia da sentinela. Até aquele momento, a guerra lhe parecia uma briga particular entre políticos de São Paulo e do Rio. Seu irmão Antonio, instalado com o batalhão, nas imediações da fazenda, tinha liberdade de visitá-la freqüentemente, e assim, o conflito lhe parecia muito doméstico, pois conhecia também a maioria dos soldados ali alojados.

No escuro, ninguém percebeu a manobra. Acabou acomodando-se ao lado do irmão Antonio e bateu-lhe nas costas: Ele pensando que fosse um companheiro, não ligou. Mas quando a viu, ficou apavorado. Sua vontade era jogá-la pra fora do caminhão. Muito pálido, Antonio puxou-a para junto de si e baixinho intimou-a à descer: – Já, já, desce! Isto não é coisa pra mulher. Disse-lhe que estava louca, onde já se vira uma mulher no meio de soldados, armada como se fosse um homem. Ela estava decidida e não houve jeito. Maria permaneceu firme. É a mais velha. Está com 33 anos. Se os irmãos se metem numa briga que ela não pode apartar, briga também ao lado deles, pronto! Antonio passa da fúria à súplica. Em vão. Os outros soldados na confusão da partida, nem notaram a sua presença. Diariamente ouvia falar em traições, deserções, em atrocidades cometidas pelos ditatoriais. No quartel mesmo, soubera de casos espantosos de covardia e negligência.

Maria vai à guerra

Antes de chegar ao seu destino, depois de meia hora de marcha, uma contra-ordem. O caminhão deveria voltar e a 4ª Cia ocuparia novamente as trincheiras na fazenda paulista. Poucas horas depois, Maria viu-se pela primeira vez debruçada num talude de trincheira, com o fuzil apontado para o nada da noite. Antonio insistiu ainda:

-Deixe de teimosia. Se quiser mesmo ajudar os revolucionários, vá para a cidade e fique na retaguarda, costure fardas, sirva numa cantina, num hospital de sangue, nos lugares, enfim, em que as mulheres costumam ajudar.

Maria, indiferente a súplicas do irmão, olhava fixamente para o alto da colina , à distância, banhada de luar, onde supunha fosse aparecer o inimigo. Já dentro das trincheiras, se lembrou de que nunca em sua vida manejara arma de fogo e então percebeu que não sabia manejar o fuzil. No entanto, até uma cartucheira recheada de balas ela conseguira. De dar tiro, porém, a única coisa ela sabia fazer era puxar o gatilho. Mas para o tiro sair, devia haver alguma complicação técnica antes. Lá na colina banhada pelo luar, surgiram vultos. Maria mal teve tempo de pensar que vultos seriam aqueles e, uma saraivada de balas zunia sobre ela, pipocando chocho na terra mole da trincheira. O tenente Meira circulava entre os soldados, agachado, dando ordens. De súbito, ele gritou: “Fogo!”

Maria na trincheira

Tenente Mario Meira

Felizmente, tudo correu bem e o combate terminou sem baixas para a tropa revolucionária. Em seguida, o Tenente Meira, superior imediato, percorreu toda trincheira, perguntando se havia alguém ferido. Quando… de repente, o tenente estacou! Estava diante de Maria. Ela bem que ela tentou engrossar a voz, mas seus cabelos, soltos ao vento, chicoteavam as suas faces. Seu irmão, que estava perto, foi logo dizendo para o Tenente: “É minha irmã”. Ela ficou firme. O tenente espumou de raiva.

Parado diante dela, esbravejou:
– A senhora é louca? Que é que está fazendo aqui? Volte para a cidade. Como é seu nome?
– Maria Stela Rosa Sguassábia.
– A senhora não compreende que, em vez de ajudar, vai atrapalhar? Mas, francamente!
– Eu quero ficar, implorou-lhe Maria. Argumentou, justificou.
O tenente estava irredutível:
– A senhora não tem juízo? Como é que veio parar aqui? Já! Volte para a cidade.
Furioso, o Tenente disse-lhe que não precisava de mulheres e sim de munições. Ela teria que voltar para casa de qualquer jeito. Não queria saber de mulheres no meio de sua tropa. Alguns soldados reconheceram a professora da fazenda e interferiram. Alguém então sugeriu que antes dele tomar uma atitude definitiva, que fosse consultado o Estado Maior, que encontrava-se aquartelado em São João da Boa Vista. Outras vozes aplaudiram a idéia. O tenente vacilou. Bufou ainda, mas acabou concordando. O primeiro mensageiro que saiu para São João levou a consulta.

Maria foi aceita no batalhão com SOLDADO MÁRIO

Certificado de participação na Revolução de 32

Foram poucos os dias que a 4ª Cia. sustentou sua posição na fazenda paulista. Com a queda de Aguaí (antiga Cascavel) e outras cidades da região em poder dos ditatoriais, todo o 1º Batalhão teve de se retirar rapidamente para Casa Branca, a fim de não ser envolvido. Caminhões com soldados e víveres saiam em direção das estradas. Os trens apitavam na Estação Mogiana, em barulhentas manobras aumentando a confusão. Maria aproveitou para rever sua filhinha e seu pai. Mal conseguiu abraçá-los, teve que sair correndo em busca do caminhão que a transportaria. Só pela manhã terminou a retirada para Casa-Branca, onde o Comando Geral de todo o Setor, compreendido entre Mococa e Aguaí (Cascavel), assumiu o compromisso de retomar as cidades paulistas, caídas em poder das tropas inimigas. Concentrados na linha de combate constitucionalista, os atacantes mudaram a tática e se entrincheiraram pelos abrigos que encontravam. Maria sente o coração aos pinotes. Pela primeira vez, ela vê o inimigo. Agora, ele não é um vulto negro, indistinto, contra o qual atirava sem saber se tinha acertado ou não. O inimigo está ali, a três quilômetros, se tanto. E, a medida que se aproxima, pode ela escolher um homem qualquer, a esmo, enquadrá-lo na massa de mira e abatê-lo, como fazem os caçadores com as feras. A professorinha rural já sabe manobrar a arma com certo desembaraço. Só os “solavancos” do coração ainda perturbam um pouco a pontaria. A luta durou vários dias. Houve vários feridos, leves e gravemente. Um soldado desconhecido morreu na trincheira.

O trem blindado

Maria comportou-se durante toda a luta como verdadeira guerreira e com os seus companheiros de trincheiras, recebeu diretamente o ataque das tropas contrárias, sem uma reclamação, sem alimentação e mesmo água para beber. Manteve-se calma, tornando-se alvo da admiração e estima de todos os companheiros. Na segunda-feira, encharcada até os ossos, faminta, esfarrapada, Maria assistiu a debandada do inimigo. Mal, porém, a tropa se refez do choque violentíssimo, receberam ordens para cercar a qualquer preço a cidade de Vargem Grande alguns quilômetros adiante.

CREIO
Creio no pavilhão da Treze Listas,
Na Santa União de todos os paulistas,
Na comunhão da terra Adolescente,
Na remissão de nossa gente,
Numa ressurreição do nosso bem,
Na vida eterna de São Paulo,
Amém.
Guilherme de Almeida

Maria dá ordens de prisão a um soldado inimigo

Maria, mal refeita do combate, faz a marcha a pé, com tremendo sacrifício. Mas não se queixou, nem reclamou regalias, nada. Era um soldado como outro qualquer. Ela confessou mais tarde, que só nesse dia sentiu como era duro guerrear. Deviam chegar às imediações da cidade até às 4 horas da madrugada. Assim exigia o plano que Romão Gomes traçou. Para a tomada de Vargem Grande, andou uma noite toda, em caminhões e a pé e somente uma natureza forte como a de Maria, podia agüentar os sofrimentos próprios daquela caminhada, transpondo vales, montes, brejos, a fim de surpreender o inimigo entre vários fogos. Sob as ordens do tenente Meira, foram cortadas as comunicações telefônicas dos inimigos. Capitão Homero ordenou que fosse colocada uma metralhadora em cima de uma residência, onde eles haviam entrado pelos fundos e que ficava bem na praça central. Maria, foi um dos primeiros a atender a ordem de “avançar”. Ocuparam a cidade de Vargem Grande, entre saraivada de balas e rajadas de metralhadoras. Ao romper do dia, atacaram também pela retaguarda, de surpresa, as posições inimigas e após duas horas de fogo, dominam as ultimas trincheiras e aprisionaram cerca de centena de soldados e alguns oficiais. Dali seguiram para o Bairro de Pedregulho. A viagem foi feita a pé durante a noite, atravessaram com precaução os obstáculos do terreno. Só pela madrugada chegaram nas imediações do Pedregulho e ficaram preparados, em posição de ataque. Maria, seu irmão Antonio e mais dois soldados, avistaram grupamento que estava acampado atrás da igreja local e decidiram cercá-lo. Aproximou-se de alguns deles que estavam deitados e de arma em punho gritou: Rendam-se! Os soldados mineiros quando ouviram a ordem de rendição vinda dos soldados constitucionalistas, não acreditaram no que estava acontecendo. Nenhum deles esboçou qualquer movimento de reação, nem procuraram suas armas. Limitaram-se a comentar, admirados: “É uma moça”.

Maria foi promovida a Cabo, após prender um Tenente Ditatorial

Maria e os oficiais, num almoço em Campinas, 20 anos depois…

Depois de alguns dias de merecido descanso no aconchego familiar, os soldados receberam ordens de partirem imediatamente para São Sebastião da Grama, onde os ditatoriais estavam resistindo ao ataque das forças de São José do Rio Pardo e Divinolândia (Sapecado). Centenas de soldados foram de trem e outra grande quantidade seguiu em caminhões. De Vargem Grande seguiram caminhões e automóveis até as imediações da cidade de São Sebastião da Grama, a nova frente de batalha. Maria, estava sempre na vanguarda, porque fazendo parte do grupo do Sargento Christovam, a qual não podia ser poupada, pois por sua eficácia e coragem, era sempre um dos primeiros e onde havia o maior perigo, ela ali se encontrava. Em poucos minutos, desencadeou-se a pior artilharia que a tropa paulista havia submetido. Metralhadoras vomitavam balas em todas direções e os soldados, surpreendidos, atiraram-se ao chão, protegendo seus corpos nos barrancos entre as pedras, sem poder revidar. Ficaram todos inertes, com os narizes afundados no chão, sem poder movimentar um dedo sequer. O intenso tiroteio só cessou pela manhã. Foi Maria, o primeiro a erguer-se do chão e, numa demonstração de profunda coragem, atravessou o perigoso trecho. Seu exemplo foi seguido de perto por seu irmão Antonio, que durante todo o movimento nunca a abandonara. Nesse combate Maria experimentou, pela primeira vez, o amargor da derrota. O setor estava fortificado pelo inimigo. Em 4 dias, a 4ª Cia. se empenhou em 10 combates intensos, muito dos quais de uma violência incrível. Em todos eles Maria assistiu a morte de companheiros, viu-os sair carregados, em padiolas. Viu homens chorando. Viu companheiro desertar. Viu o diabo. Como sempre, ela lutou desesperadamente e no dia seguinte, com todo merecimento, foi promovida a Sargento. E antes que pudessem tomar São Sebastião da Grama, a 4ª Cia. recebeu ordens para rumar direta e apressadamente para Campinas, pois não havia mais nada a fazer naquele setor. Até a capital São Paulo, estava ameaçada pelo norte.

Promovida a Sargento, Maria chora a derrota dos Constitucionalista. É o fim da guerra!

O destino do movimento constitucionalista estava selado. Campinas também devia ser evacuada. Em seguida, Maria recebeu ordens de comandar um pelotão que deveria guarnecer a retaguarda do 1º Batalhão, que, de trem, embarcaria para São Paulo. Assim, a Coluna Romão Gomes foi dispersada em meio à perseguição dos adversários. O 1º Batalhão largava numa extremidade da cidade, na outra entravam as tropas ditatoriais. Estava cumprida a missão de Maria. e a Revolução Constitucionalista, terminada. Chorando de ódio, Maria e Antonio, sem outra alternativa, perambularam pelas ruas convulsionadas da cidade. Pensavam num jeito de voltar a São João. Já não havia mais nada a fazer depois de quase três meses de lutas e sacrifícios. Agora, era evitar que caíssem prisioneiros. Maria pensou ainda em como esconder seu fuzil. Doía-lhe imaginá-lo servindo aos ditatoriais. Juntamente com seu irmão e outros, procuraram refugio, mas a impressão que tinham era de que não havia ficado viva a alma na cidade.

Na porta de sua casa com uma sobrinha

De Campinas, sem recursos, cansada, juntamente com o seu irmão, Maria Sguassábia, decidiu deviam retornar ao seu lar. Antonio tentou ainda demovê-la da idéia de seguirem para São João. Seriam 150 quilômetros a fazer a pé. Ela insistiu. O jeito era voltar para São João da Boa Vista, como civis. Passaram fome e sede, cortaram campos, brejos e matas, foram picados por formigas, mataram cobras, caminharam, fugindo das estradas cheias de inimigos. Pelo caminho encontraram Tropas do Governo Federal que haviam ficado na retaguarda e com medo de serem reconhecidos, esconderam-se no mato. Marcharam dois dias e duas noites, evitando as estradas. Ao passarem por Aguaí (Cascavel), onde pretendiam conseguir algo para comer e beber, perceberam movimentos de patrulha. Ela soube pelo dono do barzinho da beira da estrada, que sua cabeça estava “à prêmio”. O tenente João Batista, o que fora preso por Maria em Pedregulho – montara ali um posto de guarda e garantia um prêmio de dez mil cruzeiros por sua captura! Sabia que residindo em São João e uma vez terminada a Revolução, Maria tentaria voltar para sua casa. Mas o tenente não teve o gosto de lhe por as mãos!

Maria Stela Rosa Sguassábia faleceu em 14 de março de 1973, aos 74 anos. Está sepultada no cemitério de São João da Boa Vista, SP.

Foi uma heroína. É a nossa Joana D´Arc.

Enquanto isto, o Tenente que os comandava e estava um pouco retirado, tentou fugir. Maria foi atrás dele e apontou-lhe o fuzil e deu-lhe voz de prisão. Depois de preso, ele se recusou a entregar as armas. Já achava demais o fato de ser preso por uma mulher. Nesta altura, quando o tenente Meira alcançou as primeiras trincheiras de Pedregulho, não acreditou no que via. Quatro bravos soldados seus de armas apontadas para um grupo de inimigos. Todos eles de mãos levantadas, menos um tenente chamado João Batista Silveira da Força Pública de Minas Gerais. Este blasfemava, quase em choro. Quando aproximou-se, verificou que o oficial havia sido preso por Maria, que com os cabelos revoltos e as faces afogueadas, discutia com ele, que não aceitava ser preso por uma mulher. Ela, com seu fuzil apontado para o peito do oficial, não dizia nada.
Ao avistar o tenente Meira, seu comandante, perfilou-se e disse:
-Pronto, meu Tenente, o que é preciso para que este oficial se renda?
O tenente Meira ficou mudo! De espanto com a ousadia de Maria. Avançar sobre a trincheira do inimigo, já era coragem de sobra. Capturar um tenente, e logo quem, o comandante de Pedregulho!…
-Mas isto é um absurdo! – queixava-se o homem. Um oficial ser preso por uma mulher!
A resposta imediata foi mais dirigida ao comandante, que a ela própria. Disse o tenente Meira:
-Não se envergonhe de ser prisioneiro de uma mulher, Tenente, porque indiscutivelmente o senhor está tendo a honra de ser aprisionado pelo mais valente Soldado Paulista.
O oficial comandante, espumando de ódio e sentindo-se humilhado, respondeu:
-Eu estou pronto a me entregar a um homem oficial, porém, a um soldado e ainda mais uma mulher, nunca.
Então, fazendo-lhe a vontade, o Tenente Meira desarmou-o… e em seguida prendeu-o. Esta façanha valeu a Maria uma promoção a Cabo.

Precisando trabalhar para sobreviver, pois, por exigência do tenente João Batista, foi exonerada do serviço público, Maria conseguiu um trabalho como costureira, ajudante de alfaiate. Mudou-se para um chalezinho modesto, com alpendre na frente e muitas latas de avenca, na Rua Luiz Gama, 244, num antigo bairro da cidade. Certo dia, já convalescente, vários meses depois de terminada a guerra, costurava, na varanda de sua casa, quando, no portão, surge um homem. Magro, barbudo, irreconhecível. Era Primo, tido como morto nos combates de Eleutério. Havia caído prisioneiro.
Felizmente, através de uma amiga de infância, que tinha conhecido junto ao Secretário de Educação da época, Maria obteve a sua reintegração na Educação. Lecionou durante algum tempo e, quando Armando Salles Oliveira era Governador, conseguiu ser nomeada inspetora de alunos do “Colégio Estadual Cristiano Osório de Oliveira”.
Quando pleiteou a regalia do artigo 30 da Constituição Estadual, que concedia aumento de salário aos funcionários combatentes de 32, teve de provar, exaustivamente, sua participação na luta. Ninguém queria acreditar que “uma mulher tivesse, de fato, combatido nas trincheiras”. Escreveu para o tenente Mário Meira, pedindo um documento que provasse que estivera lutando na revolução e este escreveu um relatório pormenorizado de sua atuação como soldado revolucionário, como podemos ler na página a seguir.

ORAÇÃO ANTE A ÚLTIMA TRINCHEIRA
Guilherme de Almeida

Agora, é o silêncio.

É o silêncio que faz a última chamada:
– Martins! Miragaia! Dráuzio! Camargo! Paulo Virgínio!

E é o silêncio que responde:
– Presente!

Depois, será a grande asa tutelar de São Paulo
– Asa que é dia e noite e sangue e estrela e mapa – descendo, petrificada, sobre um sono que é vigília.
E aqui ficareis, Heróis – Mártires, plantados, firmes, para sempre neste santificado torrão de chão paulista.
Para receber-vos, feriu-se ele da máxima de entre as únicas feridas, na terra, que nunca se cicatrizam.
Porque delas uma imensa coisa emerge e impõe-se, que as eterniza.
Só para o alicerce, a lavra, a sepultura e a trincheira se tem o direito de ferir a terra.

E, mais legítima que a ferida do alicerce, que se eterniza na casa, a dar teto para o amor, a família, a honra, a paz;

Mais legítima que ferida que da lavra, que se eterniza na arvore, a dar lenho para o leito, a mesa, o cabo da enxada, a coronha do fuzil;

Mais legítima que a ferida da sepultura, que se eterniza no mármore, a dar imagem para a saudade, o consolo, a bênção, a inspiração;

Mais legítima que essas feridas é a ferida da trincheira, que se eterniza na Pátria, a dar toda a pura razão-de-ser da casa, da árvore e do mármore.
Este cavalo trapo de terra – corpo místico de São Paulo, em que ora existis, consubstanciados, mais que corte de alicerce, sulco de lavra, cova de sepultura é rasgão de trincheira.
E esta, perene, que provais é a nossa última trincheira.

Esta é a trincheira que não se rendeu:
A que deu à terra o seu suor,
A que deu à terra a sua lágrima,
A que deu à terra o seu sangue!

Esta é a trincheira que não se rendeu:
A que é a nossa bandeira gravada no chão
Pelo branco do nosso ideal
Pelo negro de seu luto,
Pelo vermelho do nosso coração!

Esta é a trincheira que não se rendeu:
A que, atenta, nos vigia;
A que, invicta, nos defende;
A que, eterna, nos glorifica!

VOLTA SEGUE

Esta é a trincheira que não se rendeu:
A que não transigiu,
A que não esqueceu,
A que não perdoou!

Esta é a trincheira que não se rendeu:
A que vossa presença, que é relíquia,
Transfigura a consagra num altar
Para o vôo até Deus da nossa fé!
E, pois, ante este altar, alma de joelhos,

A voz rogamos:
Soldados Santos de 32,
Sem armas em vossos ombros, velai por nós!;
Sem balas na cartucheira, velai por nós!;
Sem pão em vosso bornal, velai por nós!;
Sem água em vosso cantil, velai por nós!;
Sem galões de ouro no braço, velai por nós!;

Em 11 de abril de 2012, foi fundado em São João da Boa Vista o núcleo de correspondência Soldado Maria Sguassábia, em preparação as festividades dos 80 anos da Revolução Constitucionalista na região, conforme ata abaixo:

ATA DA REUNIÃO DE FUNDAÇÃO DO NÚCLEO DE CORRESPONDÊNCIA SOLDADO MARIA SGUASSÁBIA – SOCIEDADE VETERANOS DE 32

Aos 11 dias do mês de abril do ano de dois mil e onze, às 10 horas, no Salão Nobre da Prefeitura Municipal de São João da Boa Vista, foram reunidos ilustres cidadãos, com a objetivo de criar um núcleo de correspondência da Sociedade Veteranos de 32, para a divulgação da história da revolução, nas comemorações de seus 80 anos. Presentes os seguintes cidadãos: Francisco de Assis Carvalho Arten, professor, vereador da Câmara Municipal de São João da Boa Vista e presidente da Academia de Letras de São João da Boa Vista; Neusa Maria Soares de Menezes, professora, bacharel em Direito e membro da Academia de Letras de São João da Boa Vista; Herbert Victor Levy Filho, Coronel PM Mario Fonseca Ventura, presidente Sociedade Veteranos de 32 – MMDC; Miguel Gantus Jr., desembargador; Walmir Mathias Teixeira, subtenente chefe da Instrução do Tiro de Guerra 02-036; Hedel Fayad, representante em São Paulo da Fundação Cultural Exército Brasileiro; Paula Maria Magalhães Teixeira, arquiteta da Assessoria de Planejamento da Prefeitura de São João da Boa Vista e Marcelo da Costa Gregório, jornalista da Assessoria de Imprensa Prefeitura de São João da Boa Vista. Foi eleita por unanimidade a presidente do núcleo, Neusa Maria Soares de Menezes. A importância deste núcleo é eternizar em São João da Boa Vista, para escolas e para toda a sociedade a memória da revolução de 32. O Coronel PM Mario Fonseca Ventura, apresentou aos presentes a idéia do funcionamento do núcleo através de ferramentas da internet, como um blog onde as informações sobre a revolução serão divulgadas. Os presentes aprovaram a idéia, que deverá ser implantada. Foi comunicado aos presentes, pelo vereador Francisco de Assis Carvalho Arten, que será instalada a Sala Herbert Levy na Estação Ferroviária da cidade, junto a nova sala da Academia de Letras. Nesta sala estará reunida a biblioteca particular doada pela família de Herbert Levy, que se compõe de livros da Revolução de 32 escritos por ele, mais biblioteca com coleção sobre a revolução de 32, mais coleção de outros autores, além de obras antigas e raras. Foi decidido que será construído em São João da Boa Vista, um Memorial da Revolução de 32, em local a ser definido. Ficou decidida a data da inauguração da Sala Herbert Levy, que será dia 14 de julho de 2012, data das comemorações dos 80 anos da revolução. Neste dia a Fanfarra do Tiro de Guerra sob o comando do Subtenente Walmir Mathias Teixeira, participará da inauguração. Não havendo mais nada a ser tratado, e diante da anuência dos presentes, o vereador Francisco de Assis Carvalho Arten declarou a reunião encerrada às 14h00, sendo que eu, Paula Maria Magalhães Teixeira, secretariei e lavrei a presente ata.

São João da Boa Vista, 11 de abril de 2012

Neusa Maria Soares de Menezes
Presidente
Francisco de Assis Carvalho Arten

Vice-Presidente

Histórico

Escrito pelo Tenente Mário Meira em 1935

D. Maria Stella Sguassábia

A 4ª Cia. B. Araújo, do 1º B.P.M.Civil, achava-se em meados de julho de 1932, nas fronteiras paulista, estendidas em uma frente de cerca de dois quilômetros, guardando as estradas “Andradas -S. João da Boa Vista”e “Jardim -São João da Boa Vista”.
O P.C. da Cia. Estava localizado perto da Fazenda Paulicéa, onde se encontrava um grupo de combate, debaixo do comando do sargento Christovan Resende, mais tarde promovido a tenente por atos de bravura.
Encostada ás nossas divisas, erguia-se uma modesta casa, onde a Câmara Sanjoanense mantinha uma escola, dirigida pela professora Maria Stella Sguassábia, que ali residia, em companhia de sua filhinha e um irmão moço, que ao Toque de Reunir, alistou-se como voluntário da 4ª. Cia.
Seguindo o irmão, D. Maria, preparava para ele e os soldados de seu grupo, o alimento necessário, tornando-se então a cozinheira de todos eles. Insistentemente, D. Maria pedia ao Comando, autorização para ingressar-se como voluntária, afim de, também juntamente, com o seu irmão, defender S. Paulo. Esta autorização, lhe foi negada sempre, tendo em vista o seu sexo.
Em fins de julho, porem, tendo o Grupo de qual fazia parte sido atacados pelos ditatoriais, tomou um lugar de um voluntário que havia desertado e valentemente de fuzil em punho, defendeu as suas posições. Desde então, tendo o comando da 4ª. Cia. Visto a sua ação enérgica como defensora de S. Paulo, não hesitou um momento, incorporando-a á Tropa com o nome de Mario Sguassabia.
Com a tomada de Jardim e Espírito Santo do Pinhal pelos ditatoriais, teve o Comandante Romão Gomes, ordens de abandonar as suas posições, mandando então recuar toda a sua Tropa, componentes do 1º. B.P.M Civil e algumas Companhias isoladas, de baixo de seu comando, afim de que não fossem envolvidas pelo inimigo. Foram então abandonadas as ótimas posições do “Prata”, onde os seus voluntários bateram-se como verdadeiros leões, bem como as de “Mamonal”, “Fartura”, “Paulicéa” etc.
Em trens especiais e caminhões, operou-se a retirada para Casa-Branca, onde tomando o Comando Geral de todo o Sector, compreendido entre Mococa e Cascavel, assumiu o compromisso de retomar as cidades paulistas, caídas em poder das Tropas Inimigas.
Tendo estudado um vasto plano de ataque, modificou vários Comandos e tendo em pessoa visitado todo o front, preparou com meticuloso cuidado a formidável ofensiva que em poucos dias havia de trazer ás suas tropas mal armadas e municiadas, o prestigio, o valor e o nome que infundia pavor ao inimigo “Coluna Romão Gomes”.
Com a queda de Cascavel, foi ordenada á 4ª. Cia. que marchasse ao encontro do inimigo e oferecesse combate, onde quer que ele estivesse. Num trem especial, fomos até “Miragaia” onde encontramos cercado de 80 soldados paulistas, que haviam sido obrigados a abandonar Cascavel depois de terem oposto desesperada resistência ás Tropas Contrarias, tendo tido alguns mortos e feridos e mais de uma dezena de prisioneiros.
O Cap. Homero da Silveira, procurou então, levantar o moral daqueles homens e ordenando a elementos da 4ª. Cia. Que explorassem todo o terreno alguns quilômetros em diversas direções, resolveu retroceder para a Vila da Lagoa, isto já cerca de 11 horas da noite, onde mandou imediatamente cavar trincheiras e preparar todas as defesas para uma desesperadas resistência. As ultimas trincheiras não estavam totalmente abertas quando a vanguarda inimiga, ás duas horas da tarde do dia seguinte fazia os primeiros disparos e era recebida condignamente pelas nossas Tropas, já nessa hora reforçada com elementos de outras Cias., postadas no nosso flanco esquerdo, defendendo as nossas posições de um possível ataque partido de Vargem Grande, já também em poder dos invasores.
Atacados em Lagoa por cerca de 1200 homens, a nossa Tropa bateu-se valentemente e depois de 26 horas de combate conseguiu desbaratar o inimigo tendo para isso, contribuído fortemente o Destacamento da 4ª. Cia. Que atacou pela retaguarda e o Trem Blindado, que apanhou grande parte das Tropas atacantes em dois fogos, fazendo-lhes grande mortandade.
D. Maria Stella Sguassábia, bateu-se durante toda a luta como verdadeira espartana e com os seus companheiros de trincheiras, recebeu diretamente o ataque das Tropas Contrarias, sem um desfalecimento, e sem alimentação e mesmo água para beber, manteve-se calma, sem soltar uma queixa, tornando-se alvo da admiração e estima de todos os companheiros.
Novas ordens dadas. Temos que varrer de toda aquela zona, o inimigo e enquanto parte de nossas Tropas atacam e ocupam Cascavel, a 4ª. Cia. E outras forças num movimento temerário e feliz, envolvem cidade de Vargem Grande, depois de uma longa caminhada a pé pela noite adentro e ao romper do dia, atacam pela retaguarda, de surpresa, as posições inimigas e após duas horas de fogo, dominam as ultimas trincheiras e aprisionam cerca de centena de soldados e alguns oficiais.
São apreendidas então, mais de 100 fuzis novos, varias armas automáticas e algumas dezenas de milhares de projeteis.
D. Maria Sguassábia, foi das primeiras a atender a ordem de “Avançar”, ocupando a Cidade de Vargem Grande, entre as saraivada de balas e rajadas de metralhadoras.
Para a tomada de Vargem Grande, andou-se uma noite toda, em caminhões e a pé e somente uma natureza forte como a sua, podia agüentar os sofrimentos próprios daquela caminhada, transpondo vales, montes, brejos, a fim de surpreender o inimigo entre vários fogos. Após dois dias o Comandante Romão Gomes ordena o ataque simultâneo de “Pedregulho” e “Grama”.
O Cap. Homero da Silveira, com uma centena de homens, transpondo uma serie de obstáculos e caminhando dezenas de quilômetros, corta a estrada Poços de Caldas – Grama, fazendo ótimas presas de Guerra, enquanto a 4ª. Cia. A Tropa do Cap. Ruys, atacam “Pedregulho”.
Coube, sem duvida nenhuma, á 4ª. Cia. A parte difícil da empresa: – Entrar pela retaguarda do inimigo, separando-o de S. João da Boa Vista, onde tinham o seu Q.G. com o grosso das suas tropas, cortando todas as vias de comunicação e também a sua retirada.
Ás 6 horas da manhã, inicia-se o ataque a Pedregulho, ocupado por uma Cia. mista do 5º B. da F.P Mineira do 7º B.P de Minas Gerais. Depois de algumas horas de fogo, tendo nós, garantido a nossa retirada com um pelotão e uma M.P. demos a ordem de “Avançar”, entre o crepitar das M.P. dos seus Z.B. e varias armas automáticas. Palmo a palmo fomos conquistando o terreno e entrando em contato direto com o inimigo, dentro já das suas trincheiras, deparamos com orgulho e admiração, quatro voluntários sanjoanenses, nossos valentes soldados já desarmando os primeiros inimigos.
Entre os quatro bravos, D.Maria Sguassábia, os cabelos revoltos as faces afogueadas, discutia com o Tenente X, Comandante de Pedregulho, que não queria ser preso por uma mulher.
Ao ver me, perfila-se e diz: “Pronto, meu Tenente, o que é preciso para que este oficial se renda?”. A minha resposta imediata foi mais dirigida ao Comte de Pedregulho, que ela própria. “Não se envergonhe de ser prisioneiro de uma mulher, Tenente, porque indiscutivelmente o Sr. está tendo a honra de ser aprisionado pelo mais valente Soldado Paulista”. “Eu estou pronto a me entregar a um homem oficial, porém a um soldado e ainda mais uma mulher, nunca”. Fiz-lhe a vontade, desarmando-o então…
Cinco armas automáticas, foram apreendidas, constando de duas M.P, duas X.B e uma F.M, juntamente com cerca de 140 fuzis, e dezenas de milhares de cartuchos, bem como 92 prisioneiros entre eles dois oficiais. No dia seguinte ocupamos S. João da Boa Vista.
Estando a cidade de Vargem Grande, ameaçada de perto pelas Tropas de Grama, não foi possível dar o descanso de um dia sequer aos voluntários componentes da 4ª. Cia.
Mal teve tempo D. Maria Sguassábia de abraçar seu velho pai e beijar sua filhinha e já de novo partia com os seus companheiros para a defesa de Vargem Grande. Naquela localidade, dias antes em poder do inimigo e naquele momento, ocupada pelas Tropas valorosas mas mui reduzidas em numero do Cap. Ruys, para a sua defesa, mostrava-se a população alarmada com as conseqüentes avançadas do inimigo, reforçados com Tropas frescas e regulares da F.P.M.
Com a chegada, porem á noitinha da 4ª. Cia. com um efetivo então cerca de 200 homens, o povo vargengrandense, cobrou calma e nesta mesma noite, ordenamos o avanço, de toda a Cia. Para a zona onde os ditatoriais haviam desalojados pequenas Tropas do Cap. Ruys.
Ás 11 horas da noite, havíamos caminhando quase 11 quilômetros pela manhã ocupamos a Fazenda do Sr. João Costa, onde estabelecemos o nosso P.C. Estivemos ali cerca de 20 dias e em cumprimento das ordens emanadas do Comte Romão Gomes, construímos várias trincheiras e com o nosso efetivo ocupamos uma frente de mais de três quilômetros.
Dispúnhamos então de 2 M.P., 2 Z.B. e 2 F.M., todas estas armas tomadas ao inimigo em combates anteriores, bem como os nossos fuzis que eram de primeira qualidade.
Com as ordens dadas para que procurássemos o inimigo, onde quer que ele estivesse, resolvemos avançar depois de explorado o terreno e á meia noite em ponto ocupamos fortes posições, distante cerca de 500 metros da trincheiras inimigas, de onde iniciamos fogo contra as suas posições, tendo-se combatido até pela manhã.
Com ordens formais para que recuássemos, assim o fizemos e depois de uma noite de verdadeiro destemor pela vida, voltamos ás nossas antigas posições.
D. Maria Sguassábia, estava sempre na vanguarda, porque fazendo parte do grupo do Sargento Christovam, o qual não podia ser poupado, pela sua eficácia e coragem, era sempre dos primeiros e onde havia o maior perigo, ela ali se encontrava.
Tivemos nestes poucos dias em redor da Grama nada menos de 10 combates, muito dos quais de uma violência incrível, como no de um sábado em que as nossas Tropas foram envolvidas pelo seu Flanco direito, por um batalhão dos contrários.
Conseguimos, porem, romper o cerco e embora tivéssemos tido muitos feridos e mais de duas dezenas de desaparecidos, poucas horas mais tarde, ainda oferecemos resistência seria ao inimigo, que tendo avançado, chegou ás nossas posições, sem pressentir o grande perigo que sobre eles pairava, pois conhecíamos muito bem as nossas posições consideradas quase inexpugnáveis.
Cumprindo porém as ordens, para que nunca deixássemos de parlamentar com Tropas inimigas, para ver se conseguimos a sua adesão, o fizemos com alguns oficiais das Tropas Contrarias, que se achavam em terreno quase raso, a distancia não superior a 100 metros das nossas posições.
Depois de uma palestra com eles e de algumas esperanças que nos deram, conseguimos colher informações precisas daquela Tropa, chegada de pouco de Uberaba, muito bem armada e municiada. Felizmente para nós, colhemos informações seguras por um amigo que se achava entre os ditatoriais, comandando uma das Cias.., que no cerco da manhã não haviam aprisionado nenhum dos nossos e que a única cousa que tinham em seu poder era um caminhão danificado e um saco de grandes de mão.
Com a chegada de muitos caminhões carregados de soldados para reforço daquela Tropa já tão numerosa, que se achava na nossa frente, uma das nossas M.P. achou melhor começar o combate, mesmo sem ordens, e foi assim que a 4ª. Cia. Com o seu efetivo reduzido pela metade, enfrentou com a sua coragem de sempre o inimigo numerosíssimo e combatendo a 100 metros na proporção de 1 para 10 homens, sustentou 9 horas de fogo, tendo-se combatido até a 1 hora da madrugada.
D. Maria Sguassábia, como sempre, com o seu mano e entre os outros companheiros, lutou desesperadamente e no outro dia, teve mui merecidamente a sua promoção a Sargento, tendo sido promovido também a Tenente, o Sargento Christovam, promoções estas, recebidas com grande entusiasmo pela 4ª. Cia.
Outras ocupações e outros combates tiveram as nossas Tropas e no dia da grande ofensiva sobre a Grama, cuidadosamente preparada pelo grande Comandante Romão Gomes, depois de estarmos com o flanco direito protegido por forças do bravo Tenente Alberto Aguiar, que ocuparam o morro dos fumeiros, e quando á noite, penosamente escalávamos varias serras e chegávamos quase dentro da Grama, a ponto de atirarmos sobre as lâmpadas elétricas de seus postes de iluminação, vem pela manhã, ao romper do sol, a dolorosa ordem de retirada para Vargem Grande.
Acostumados a obedecer, embora a contra-gosto o fizemos e depois de algumas horas chegávamos aquela cidade, onde as ordens eram terminantes para seguirmos para Casa Branca. Em caminhões, para lá nos dirigimos e somente naquela cidade soubemos que devíamos, seguir imediatamente para Campinas, ameaçada de perto pelos ditatoriais.
Chamando-nos de parte, o Comandante Romão Gomes, deu a seguinte ordem: “Meira, sei que os seus homens estão cansadíssimos, porem é á 4ª. Cia. que entrego a árdua tarefa de proteger a retirada de toda a minha Coluna. Para isso requisite os nossos melhores caminhões e somente depois de toda a minha Tropa haver passado por Casa Branca, V. deverá seguir para Campinas. É muito provável e mesmo quase certo, algum encontro com o inimigo, porem, poupe os seus homens, não oferecendo nunca combate direto ao inimigo”.
Ordens foram dadas e á 4ª. Cia. Coube sem duvida nenhuma a grande honra de proteger a retirada de toda a Coluna Romão Gomes. D. Maria Sguassábia, parte integrante da 4ª. Cia. e como Sargento que era, comandava um dos grupos do combate do Tenente Christovam, cujo pelotão, foi escalado para guardar as estradas férrea e municipal de São José do Rio Pardo a Casa Branca.
Até á noitinha manteve-se no seu posto e aguardando a passagem da cauda da Coluna, constituída por dezena e dezenas de caminhões, da intendência e do Q.C.M., já vazios de soldados, pois que quase toda a Tropa havia partido em especiais. Ás 7 horas da noite, rumava a 4ª. Cia. A cidade de Campinas, viajando em caminhões na retaguarda de toda a Coluna.
Daquela cidade, seguido 4ª. Cia. Para a “Fazendinha” onde com o seu efetivo aumentado para mais de 400 praças, foi juntamente, com toda a Coluna, passada em revista, pelo General Klinger, Comte. Romão Gomes e outras altas patentes civis e militares.
D. Maria Sguassabia, foi por esta ocasião apresentada ao General Klinger e a todos de sua comitiva. Em sendo apresentada ao Secretario da Justiça, Dr. Waldemar Ferreira, disse-lhe ele estas palavras: “O seu nome, D. Maria Sguassábia e o seu heroísmo, serão imortalizados pela historia de São Paulo e pela Historia Pátria”.
Dois dias após, estando São Paulo, já entregue aos invasores, ainda se combatia alem das pontes do Atibaia, reconstruída pela nossa eficiente Engenharia e coube ainda, como por uma ironia da sorte, ao 3º Pelotão, a difícil missão de socorrer ao bravo Tenente Fontão, que com os seus soldados, se achavam completamente envolvidos por Tropas Gaúchas.
A Sargento Maria Sguassábia, desrespeitando as ordens superiores, marcha com o seu Pelotão e teve grande felicidade de juntamente com os seus companheiros fazerem recuar a Tropa Gaúcha, salvando os seus irmãos das armas de uma carga de baioneta já iniciada.
Nova ordem de retirada e novo martírio. Com fome e com sede, depois de árduos combates, a caminhada a pé para Campinas. Ali, a ordem de debandar, porque S.Paulo havia capitulado e a Revolução Constitucionalistas, havia terminado.
De Campinas, sem recursos, juntamente com o seu irmão, D. Maria Sguassábia, toma a direção de seu lar. Depois de haver passado fome e sede, cortando campos, brejos e matas, fugindo das estradas cheias de inimigos, caminhou cerca de 250 quilômetros a pé e após vários e intermináveis dias, conseguiu rever a sua cidade, o seu velho pai e a sua filha pequenina.
Só então aquela natureza de uma nova Anita Garibaldi, foi vencida, caindo doente e guardando o leito por vários dias.
D. Maria Sguassábia, pelas suas virtudes, pelo seu heroísmo e pelo seu patriotismo, mereceu por parte de toda a população sanjoanense, o maior carinho, e a melhor das atenções e durante o tempo em que foi afastada da sua escola humilde, teve do seu povo, as maiores provas de reconhecimento, de estima e de admiração.
Como Comandante que fomos da 4ª. Cia. do 1º. B.P.M. Civil, temos a dizer que a nossa Tropa sempre teve por D. Maria Stella Sguassábia, a modesta professora, a maior estima, respeito e consideração a par da admiração, que produz o sacrifício aliado á coragem e á bravura!

Mario dos Santos Meira

Ex-1º Tenente, Commandante da 4ª Cia. Do 1º. B.P.M.Civil.

Nadir de Castro

NOTA ” O nome verdadeiro de nossa heroína, é STELA ROSA SGUASSABIA, porém como foi batizada pelo nome de MARIA STELA SGUASSABIA, sempre a conhecemos por esse nome. Aqui fica por tanto esta nota, afim de não haver futuramente, qualquer engano, erro ou mesmo mal-entendido, capaz de prejudicar a ação ou antes a participação, na “NOSSA EPOPÉA DE 32”, daquela que tanto fez, pelo Bem de São Paulo.

São João da Boa Vista, janeiro de 1935.

(a) M.S.Meira



 


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